| Publicado em
23/07/99Técnica, Tecnologia e Ciência (Final) (*)
Milton Vargas ()
No Brasil a pesquisa tecnológica foi anunciada com criação em
1898, em São Paulo, no Gabinete de Resistência de Materiais, na Escola Politécnica, mas
firmou-se em 1926, quando o Gabinete foi transformado no Laboratório de Ensaios de
Materiais (Lem), especialmente dedicado à pesquisa das propriedades mecânicas e
químicas dos materiais componentes de concreto armado. No Rio, em 1922, foi organizada
por Fonseca Costa, a Estação Experimental de Combustíveis e Minérios (EECM), com a
finalidade principal da investigação de materiais que poderiam vir a ser a fonte dos
combustíveis nacionais. Em 1934, o Lem foi transformado em Instituto de Pesquisas
Tecnológicas de São Paulo (IPT) e a EECM, no Instituto Nacional de Tecnologia do Rio.
A pesquisa científica básica
consolidou-se com a criação das Universidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, na
década de 30. Antes disso, havia pesquisa científica no país, mas, na maior parte, em
ciências aplicadas. É curioso notar que no início da pesquisa científica básica
coincide com a organização dos nossos dois primeiros institutos de pesquisa
tecnológica.
De forma geral, a metodolia da pesquisa em
ciências básicas ou aplicadas ou em tecnologia não difere em si. Somente as finalidades
são diferentes, embora os limites entre as três sejam imprecisos. Tanto é possível que
de um conhecimento básico surja uma aplicação, como de uma solução tecnológica pode
surgir uma pesquisa básica.
Em tese, a ciência básica tem como
objetivo o puro conhecimento de um determinado assunto, seja qual for. A ciência aplicada
surge quando aparece a oportunidade de, com os conhecimentos científicos adquiridos,
resolver um problema prático sem cogitar das implicações sócio-econômicas de sua
solução. Quando tais implicações são levadas em conta é que surge a tecnologia, como
utilização, e não simples aplicação de conhecimentos científicos na solução de
problema técnico.
Entretanto, é de se distinguir a pesquisa
tecnológica feita nos institutos e universidades, para resolver problemas de inovação
de materiais ou de processos técnicos em geral, da pesquisa tecnológica industrial,
visando problemas de melhoria e qualidade de produtos ou obras. A história recente da
ciência e da tecnologia vem mostrando que, em países em desenvolvimento, o incentivo e o
financiamento das pesquisas, científicas ou tecnológicas, devem ser assumidos, direta ou
indiretamente, pelo governo, mediante planos e programas de desenvolvimento.
Foi do IPT que surgiu uma das primeiras
manifestações, para que incluísse, na Constituição do Estado, em 1947, a
obrigatoriedade de dedicar-se uma pequena porcentagem da renda do Estado à pesquisa
científica e tecnológica. Disso nasceu a idéia de que tal amparo fosse feito por
intermédio de uma fundação, tendo a Fapesp surgido em 1960. Desde 1951, já fora
criado, em âmbito federal, o Centro de Aperfeiçoamento do Pessoal de Ensino Superior -
Capes, com a finalidade de prover bolsas de estudos para os estudantes brasileiros. Com a
organização a partir de 1963, dos cursos de pós-graduação nas universidades
brasileiras, essencialmente baseados em pesquisas para dissertações de mestrado e teses
em doutorado, em sua maioria subvencionados pela Capes, ficou institucionalizada a
pesquisa científica e tecnológica universitária, sob auxilio oficial.
Em 1951 foi criado o Conselho Nacional de
Pesquisa, transformado em 1974 em Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq), com a finalidade de promover, fomentar e realizar a pesquisa
científica e tecnológica. Além disso, desde o início dos anos 60, com o auxilio de
órgãos governamentais, as atividades tecnológicas no país desenvolveram-se
espetacularmente, principalmente nos institutos de pesquisas e universidades, em conexão
com a construção das grandes obras de infra-estrutura. Mas, a indústria nacional
permanecia alheia à investigação tecnológica, e a multinacional presa à tecnologia
estrangeira. Só com a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia, em 1985, se
iniciou-se uma política de envolvimento da indústria na pesquisa tecnológica, por meio
de incentivos fiscais.
No Brasil, já existem os requisitos
básicos para que a ciência e a tecnologia desenvolvam-se autonomamente: educação em
todos os níveis, inclusive pós-graduação, institutos de pesquisas, bolsas de estudos,
órgãos de amparo e financiamento, associações científicas e tecnológicas,
publicações científicas e tecnológicas, prêmios e honrarias ao mérito.
Portanto, o problema atual não é criar um
sistema de ciência e tecnologia nacional, mas, sim, torná-lo cada vez mais eficiente e
ampliá-lo, no sentido de satisfazer as necessidades sócio-econômicas nacionais. Essas
não envolvem, entretanto, obrigatoriamente ciência avançada nem tecnologia de ponta.
São problemas cujas soluções, talvez, não contribuam para o avanço da ciência
universal nem façam avançar tecnologias de ponta, mas são de primordial importância
para nós.
No mundo atual, a técnica e a tecnologia
são fenômenos peculiares à maneira de estar no mundo ocidental, essecialmente
preocupado em fazer uso das coisas como meros utensílios. A própria teoria não é mais
uma visão contemplativa do real, uma previsão de conhecimento daquilo que será
utilizado. Decorre disso que os homens devem se preocupar em não se tornar os usários ou
consumidores subordinados aos ditames da técnica.
Num mundo assim estruturado, a tecnologia
não seria uma aplicação neutra e comprometida de teorias científicas mas, ao
contrário, tanto ela como a ciência seriam conhecimentos comprometidos com as
condições políticas e econômicas da sociedade. A tecnologia tera de ser entendida com
a utilização de conhecimentos científicos para satisfação das autênticas
necessidades materiais de um povo. Faria, portanto, parte de sua cultura e não poderia
ser considerada como mera mercadoria que se compra quando não se tem ou vende-se quando
se tem. Seria a tecnologia algo que se adquire vivendo, aprendendo, pesquisando,
interrogando e discutindo.
Essa consciência é extremamente
importante no atual mundo globalizado, em que a tendência natural dos países mais
desenvolvidos será "vender" suas tecnologias àqueles que ainda não as têm,
sem se preocupar se elas atendem às reais necessidades dos que as "compram".
Será necessário, portanto, em cada país
a elaboração de políticas científicas e tecnológicas, a fim de garantir que os
conhecimentos tecnológicos adquiridos sejam os mais adequados às circunstâncias
particulares do seu país. Por outro lado, só se "importaria" tecnologia se
houvesse prévio conhecimento dos princípios científicos sobre os quais ela se baseia.
Há inúmeros exemplos, na história contemporânea da tecnologia, que atestam o fracasso
da sua "importação", quando não há por parte do "importador",
conhecimento suficiente de suas bases científicas.
Em suma, tecnologia não é mercadoria que
se adote comprando, mas, sim, saber que se aprende.
(*) Continuação da edição de 09/07
() Professor emérito da Escola Politécnica (Poli), da Universidade de São Paulo (USP) e
diretor da Themag Engenharia |